Comidas coreanas dos doramas: o guia de cada prato
Ramyeon, tteokbokki, jjajangmyeon, soju e mais: entenda o que são as comidas coreanas que aparecem nos doramas e o significado cultural por trás de cada cena.
Quem assiste dorama sabe: em algum momento do episódio alguém vai comer. E não é cena rápida de figuração — é câmera fechada no macarrão fumegante, som de mastigação, personagem soltando um suspiro de satisfação. É praticamente um personagem à parte.
Só que a comida no dorama quase nunca está ali só por estar. Cada prato tem um contexto cultural, e entender esse contexto muda a forma como você assiste. Neste guia, explicamos os pratos e bebidas que mais aparecem, como se pronunciam e o que a cena realmente está dizendo quando eles surgem.
1. Ramyeon (라면) — o macarrão instantâneo mais famoso da TV
Não confunda com o ramen japonês, que leva caldo preparado por horas. O ramyeon coreano é o macarrão instantâneo de pacote, geralmente apimentado, feito na hora em uma panelinha amarela e comido direto dela.
Aparece quando o personagem está sozinho, com fome de madrugada, sem dinheiro ou emocionalmente arrasado. É comida de conforto e de aperto.
💡 Atenção à frase mais famosa dos doramas: quando um personagem pergunta “quer comer ramyeon na minha casa?”, raramente é sobre macarrão. Virou um convite com duplo sentido depois de ficar famoso no cinema coreano, e os roteiristas adoram brincar com isso.
2. Kimchi (김치) — a alma da mesa coreana
Acelga (ou outro vegetal) fermentada com pimenta, alho e outros temperos. Está em praticamente toda refeição coreana, seja como acompanhamento, seja como ingrediente de ensopados e arroz frito.
Nos doramas, o kimjang — o mutirão familiar para preparar kimchi antes do inverno — é uma cena clássica de família reunida. Também é comum ver uma sogra brava dando um tapinha de kimchi na boca de alguém: é intimidade e afeto meio bruto.
3. Tteokbokki (떡볶이) — o lanche de rua número 1
Bolinhos cilíndricos de arroz cozidos em um molho vermelho, doce e picante. É o petisco de estudante por excelência: barato, forte e vendido em barraquinha de rua.
Quando alguém propõe “vamos comer tteokbokki”, geralmente é adolescente saindo da escola ou amigos conversando sobre a vida. Aparece muito em doramas escolares.
4. Jjajangmyeon (짜장면) — o macarrão preto da mudança
Macarrão com molho escuro de pasta de soja fermentada, de origem chinesa e adaptado ao paladar coreano. É o prato mais pedido por delivery na Coreia.
Duas leituras culturais importantes:
- Dia da mudança: é tradição pedir jjajangmyeon no primeiro dia em uma casa nova. Se você vir a cena, é sinal de recomeço.
- Black Day (14 de abril): quem está solteiro se reúne para comer jjajangmyeon, em um “luto” bem-humorado por não ter recebido presente no Dia dos Namorados coreano (14 de fevereiro) nem no White Day (14 de março).
5. Samgyeopsal (삼겹살) — o churrasco de barriga de porco
Fatias grossas de barriga de porco grelhadas na chapa no centro da mesa, comidas enroladas em folhas de alface com alho, pasta de soja e arroz.
É a comida da confraternização: colegas de trabalho depois do expediente, amigos comemorando, família se reunindo. Se a cena tem chapa no meio da mesa e todo mundo falando ao mesmo tempo, é samgyeopsal.
6. Soju (소주) e makgeolli (막걸리) — as bebidas da conversa séria
O soju é a bebida destilada mais consumida da Coreia, vendida naquela garrafinha verde inconfundível. O makgeolli é um vinho de arroz leitoso, mais leve e tradicionalmente ligado ao campo — muito associado a dias de chuva, acompanhado de panqueca salgada (jeon).
Nos doramas, a garrafa verde sinaliza que a conversa vai ficar honesta: é onde o personagem confessa o que estava guardando.
Regra de etiqueta que você vê o tempo todo: nunca se serve a própria bebida. Você serve a do outro, segurando a garrafa com as duas mãos se a pessoa for mais velha ou superior. E, ao beber diante de alguém mais velho, vira-se levemente o rosto para o lado em sinal de respeito.
7. Chimaek (치맥) — frango frito com cerveja
A palavra é a junção de chikin (frango frito) com maekju (cerveja). É a combinação nacional para ver futebol, comemorar ou simplesmente sobreviver a uma sexta-feira.
O prato virou febre internacional depois de aparecer com destaque em um dorama de enorme sucesso nos anos 2010 — e até hoje é a primeira coisa que muita gente quer provar ao visitar Seul.
8. Kimbap (김밥) — o “rolinho” de piquenique
Arroz temperado com legumes, ovo e outros recheios, enrolado em alga e cortado em rodelas. Diferente do sushi, não leva peixe cru nem vinagre no arroz.
É comida de marmita e passeio: mãe preparando para o filho levar à escola, casal em piquenique, personagem correndo entre um compromisso e outro.
9. Banchan (반찬) — os potinhos que enchem a mesa
Não é um prato, e sim o conjunto de acompanhamentos servidos em pequenas porções junto com o arroz: legumes temperados, broto de feijão, ovos, peixinhos, kimchi. São compartilhados por todos e costumam ser repostos de graça nos restaurantes.
Quando um dorama mostra uma mesa lotada de potinhos, está dizendo “aqui tem cuidado, aqui tem família”.
10. Jjigae (찌개) — os ensopados do dia a dia
Ensopados servidos borbulhando na panela de pedra. Os mais comuns são o kimchi jjigae (com kimchi curtido e porco) e o doenjang jjigae (com pasta de soja fermentada). Comida caseira, do tipo que a mãe faz.
Pratos com significado especial nas datas
Alguns alimentos aparecem em cenas específicas justamente pelo simbolismo:
- Miyeok-guk (sopa de algas): servida no aniversário e também para mães que acabaram de dar à luz. Quando alguém prepara essa sopa para o personagem, é uma demonstração de carinho enorme. Quando ninguém prepara, é solidão.
- Tteokguk (sopa de bolinho de arroz): comida no Ano-Novo lunar. Na tradição, comer tteokguk marca o acréscimo de mais um ano de vida.
- Songpyeon: bolinho de arroz recheado, típico do Chuseok, a festa da colheita — o equivalente coreano a um grande feriado de reunião familiar.
- Ovo cozido de sauna (jjimjilbang): aquela cena de amigos na sauna pública com uma toalha enrolada na cabeça, quebrando ovo na testa e tomando sikhye (bebida doce de arroz). É pura descontração.
Por que a comida é tão importante nos doramas?
Existe uma expressão coreana muito comum: “밥 먹었어요?” — literalmente “você já comeu?”. É usada como cumprimento, no lugar de “tudo bem?”. Perguntar se a pessoa comeu é uma forma direta de perguntar se ela está bem.
Isso explica muita coisa. Nos doramas, oferecer comida é oferecer cuidado; comer sozinho no chão da cozinha é sinal de abandono; dividir uma panela é sinal de intimidade. A comida vira linguagem emocional, e o roteirista usa isso para dizer o que o personagem não fala.
Vale notar também um detalhe prático: boa parte dessas cenas envolve merchandising. Marcas de macarrão instantâneo, frango frito e delivery patrocinam produções, e é por isso que a embalagem sempre aparece bem posicionada na tela. Faz parte do modelo de financiamento da TV coreana.
Quer começar a provar?
No Brasil, dá para encontrar boa parte desses itens em mercados asiáticos e em lojas online. Se for começar por algum, a nossa sugestão é o tteokbokki (fácil de achar em versão pronta) e o kimbap (dá para montar em casa com ingredientes simples).
E se você quiser entender melhor os outros códigos culturais que aparecem o tempo todo nas cenas — reverências, formas de tratamento, hierarquia —, dá uma olhada no nosso glossário do dorama com os termos essenciais. Bom apetite e boa maratona! 🍜